Um filme “Muito à frente”

Ana Galvão e Nuno Markl dão voz aos protagonistas de uma animação em tom de comédia, passada na pré-história e que mostra a evolução dos símios para os seres humanos.

filme

A história do filme é simultaneamente simples e complexa. Um símio que nasce diferente dos outros e que tem de conviver com a descriminação.

Eduardo, o filho do rei de todos os símios (pré-humanos, nasce muito franzino e, por isso, é preterido pelo pai. O facto de ser um espécime aparentemente débil e fraco faz com que o pai, apesar de Eduardo ser o primogénito, decida dar a ordem para se livrarem dele para que o irmão gémeo ocupe o seu lugar na linha sucessória.

No entanto Eduardo que sobrevive e é acolhido/protegido pelo amigo Ian, é extremamente engenhoso. A sua inteligência (ou curiosidade aliada a uma boa dose de sorte) faz com que protagonize algumas das primeiras conquistas civilizacionais da humanidade. Nomeadamente a posição ereta, a marcha, a descoberta e controlo (e aqui entra definitivamente a sorte e uma outra personagem, a Lucy) do fogo, a domesticação de animais (tipo um tigre pré-histórico)…

Quando tudo parecia perdido e no meio de um tornado eis que Eduardo conhece Lucy. Uma símia com “mau feitio” e língua afiada. A partir daí Eduardo não só descobre o amor como acaba, a determinado ponto, por conquistar a liderança da sua comunidade. E, mais tarde, lidar com o sentimento da cobiça, da inveja, mas também da amizade e da fraternidade.

Ana Galvão e Nuno Markl dão voz, na versão dobrada, às personagens principais, nomeadamente Lucy e Eduardo. Algo que, apesar de ser a primeira vez para Ana Galvão, acabou por ser muito natural. Em parte, porque representa um pouco da dinâmica existente entre o casal. Aliás, os atores que dão voz à versão original são também eles um casal na vida real.

A segurança de Nuno Markl ajudou Ana Galvão que ficou surpreendida com o esforço físico necessário para a atuação da Lucy. Esta é uma personagem muito ativa, “corre e grunhe muito, tem muita parte física e eu tinha mesmo de saltar”. De tal forma que “no primeiro dia fiquei completamente rouca”, reconheceu. Algo que, reconhece Nuno Markl, é muito importante. “Foi uma dica que o José Jorge Duarte me deu na minha primeira dobragem”. E como as duas personagens principais são muito ativas “eu saía do estúdio de rastos”, refere Nuno Markl, acrescentando, no entanto, que “deu muito gozo”. Também devido ao facto de “o argumento e os diálogos serem muito bons”. “É um filme que tem muito sumo e fala sobre o que é ser humano” e que se adapta aos dias de hoje apesar de se passar na pré-história.

Para preparar o seu papel Nuno Markl viu as cenas originais e “entrei em pânico”. Entre outras coisas porque “não sabia se conseguia falar àquela velocidade”. Quanto ao que existe de Nuno Markl no Eduardo a resposta foi rápida: uma certa vontade de inovar aliada a uma tendência para o desastre”. “Revejo-me muito na cena em que o Eduardo começa a andar – para trás”. Mesmo porque na infância, quando todos os colegas davam cambalhotas para a frente o Nuno só conseguia fazer o mesmo… para trás.

O “Muito à frente” não se trata apenas de uma tradução do original francês. Houve adaptações. Trocadilhos, piadas adaptadas à cultura portuguesa… como o recurso a um futebolista famoso… o Cristiano Ronaldo, por exemplo. Mas há mais. Ana Galvão dá o exemplo de quando o Eduardo conhece a Lucy e esta lhe fala numa língua que ele não conhece. Na versão original ele pergunta “és portuguesa?”. Aqui “vingámo-nos” porque na versão portuguesa o diálogo ficou como “não és francesa?”.

“O original é super politicamente incorreto”, reconhece Ana Galvão. E isso obrigou a uma ligeira adaptação. Mesmo porque há piadas e trocadilhos que não se perceberia em português.

Nuno Markl gostou particularmente de dar voz a Eduardo dado que não só o filme tem uma vertente cómica como tem igualmente um lado satírico sobre “o poder, a exclusão, o ser diferente, o progresso…”. Ou seja, “a história poderia passar-se nos dias de hoje”. O que significa que o filme como que usa a pré-história como uma metáfora para abordar temas que ocorrem hoje em dia. Como que antepõe “uma visão mais retrógrada contra uma visão mais progressista”.

O facto de ter sido lançado na altura do Natal não foi coincidência. Foi uma boa forma de incentivar a ida das famílias ao cinema. Como refere Nuno Markl, quase como que um espírito natalício, mas apresentado de forma diferente.

Muito à Frente (Pourquoi j’ai pas mangé mon père no original) é uma produção de Jamel Debbouze, integralmente filmada em “motion capture” (a técnica de animação que se tornou conhecida sobretudo por Avatar, de James Cameron, ou Tintin, de Steven Spielberg).

Por Alexandra Costa/OJE

Artigo publicado a 20/01/2016

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