Jazz na Culturgest

Jazz na CulturgestNo dia 23 de Junho o jazz volta a ser rei e senhor do palco Culturgest. Desta vez pelas mãos de Lencastre, Prochazka e Cabaud. Artistas que prometem quebrar barreiras estéticas entre o jazz clássico e a música dita improvisada.

“Mais tarde ou mais cedo haveria de acontecer. Ao longo dos anos, instalou-se em Portugal uma clivagem entre as duas práticas dominantes da improvisação musical. De um lado reuniram-se os praticantes do chamado mainstream do jazz, mesmo que o jazz tocado não fosse propriamente “clássico”, e do outro ficaram aqueles músicos que entenderam os conceitos de “vanguarda” e de “experimentalismo” como sendo a chave para uma abordagem mais criativa – ainda que, em certos casos, assim não resultasse.

Até que os saltos entre as duas margens foram-se tornando frequentes e quem saltava tinha já um percurso e um nome que denotavam que tais atrevimentos não surgiam ao acaso. Uma dessas figuras tem sido o baterista e compositor João Lencastre. Neste trio dedicado a uma improvisação livre em que «todo o tipo de cores e texturas pode acontecer», encontramos Lencastre com o pianista checo Vojtěch Procházka e o contrabaixista argentino, mas residente em Portugal, Demian Cabaud, eles também apostados em dissolver divisões artificiais. É o campo todo do jazz que está nas suas mãos, sem tabus nem muros de Berlim. Promete…”

Lencastre, Prochazka, Cabaud
Culturgest
Ciclo “Jazz +351”
Comissário: Pedro Costa
Jazz | 23 de junho| 21h30 | Pequeno Auditório
Preço: 5€ (preço único)

 

Da singularidade, by Rui Eduardo Paes

(crítico de música, ensaísta, editor da revista “online” jazz.pt)

Em todas as artes, o que mais se valoriza é a singularidade. Esta é, inclusive, o grande factor de identificação de um estilo, um conceito e uma personalidade. Ainda assim, nada pode ser absolutamente singular, sob o risco da incompreensibilidade e da falta de empatia para com o público. Tal condicionalismo parece tão óbvio, tão banal, que ninguém o discute, mas a sua importância explica as correntes distinções entre o que é popular, o que é erudito e o que é experimental, consoante o posicionamento que um artista ou uma obra tem na escala da diferenciação.

Quem possui os níveis singulares baixos diz-se do “mainstream” e quem os mantém no topo considera-se como sendo de “vanguarda”. O problema é que as coisas são bastante mais complicadas, e um exemplo musical disso está no trio formado por João Lencastre, Vojtéch Procháska e Demian Cabaud… Nessa régua de medição que mais se assemelha à amplitude de notas de um trombone ou um violino, a tendência é para cair nos meios-tons, quando não mesmo nos quartos-de-tom.

Foi a mais popular das artes do espectáculo que deu origem a este projecto: o circo. Nesse aspecto, o trio não podia ser artística e culturalmente mais plebeu. Deixemos que Lencastre nos conte a história: «Conheci o Vojtéch em 2001, numa “jam session” no Hot Clube. Ele estava em Lisboa com a banda de um circo checo que cá permaneceu durante um mês. Vinha todas as terças e quartas à “jam” e houve desde logo uma boa ligação. Nos dois anos seguintes voltou com o circo… A sua presença passou a ser quase anual, e a partir de 2004 foi aparecendo em digressão com o seu grupo, o Vertigo Quintet. Houve sempre oportunidade para umas colaborações e em 2006 fui até Praga para fazer uns concertos em quarteto com ele, David Douruzka e Rastik Uhrik. Desde então que trabalhámos juntos mais umas quantas ocasiões e fiquei sempre com vontade de montar algo de menos circunstancial com o pianista…»

A forma como João Lencastre conheceu o argentino, mas há muito radicado no Porto, Demian Cabaud teve, por sua vez, similitudes com a movimentação circense pelos caminhos do mundo: «Foi no Verão de 2003. O primeiro concerto aconteceu com o quinteto do Francisco Pais e nessa mesma altura fizemos uma “tour” pela Galiza e por Portugal com André Matos, Leo Genovese e Miguel Fernandez.» Ora, dá-se a coincidência de que Cabaud também tem um passado de encontros com Procháska – volta e meia, o contrabaixista aparecia nas tais “jams” do Hot. Esta é uma confluência que se explica pelo nomadismo próprio dos músicos improvisadores. Muitas das formações que surgem nestes meios são efémeras, e se esta «nasce agora para o concerto na Culturgest», o certo é que os propósitos são gravar e continuar…
Piano, contrabaixo e bateria. À partida, o formato coincide com o modelo “trio de piano jazz”, mas mais uma vez não é assim tão simples. Este está matizado nos trios de Bill Evans, tendo como expoentes máximos de então para cá os combos de Keith Jarrett e Brad Mehldau, mas não é por aí que os três pretendem seguir. Diz o baterista e mentor deste estreante investimento: «Pois não. Esses trios tocam sobretudo temas e nós o que queremos é improvisar livremente, tocar “o momento”, sem termos nada programado. Podemos desembocar num ambiente com influências de Jarrett e Evans, Ahmad Jamal e Herbie Nichols, ou não… E ao contrário desses casos, não há um líder. O meu nome surge em primeiro lugar porque fui eu que pus o trio “de pé”, mas musicalmente somos todos líderes. Acho que para um grupo de improvisação livre funcionar não pode haver líderes, temos de estar abertos às ideias uns dos outros.»

A dupla circulação de Lencastre no jazz convencional e na livre-improvisação tem-no distinguido, pois quem está num lado não frequenta o outro. Ele está nos dois porque considera que a separação não faz sentido: «Nos contextos ditos mais “mainstream” há, normalmente, uma forma/estrutura em que se improvisa, o que não se verifica na improvisação de vanguarda. O certo é que, mesmo improvisando sobre uma forma, a improvisação deve fluir livremente, dependendo da sala, do som do instrumento, do estado de espírito, etc. Quando ouvimos os discos dos grandes mestres da história do jazz, é interessante reparar o quão diferente o mesmo tema soa de uma sessão para a outra. É essa para mim a essência do jazz.»

Sobre a questão, adianta o também compositor: «É tudo um factor de opção… Pessoalmente, gosto das duas vertentes e por isso dedico-me a ambas. Assim o fazem igualmente os meus colegas do No Project Trio, João Paulo Esteves da Silva e Nelson Cascais. Não vejo risco algum nisso, e até acho bastante enriquecedor. Continuo a estudar a tradição e esta ajuda-me quando toco coisas de vanguarda, assim como os projectos de vanguarda me dão novas ideias para quando estou em projectos “mainstream”.»

Isto quer dizer que com o Lencastre-Procháska-Cabaud Trio «tudo pode acontecer». «De repente até podemos ir parar a um “standard” ou a uma atmosfera “bluesy”, mas sempre de uma forma espontânea e natural. Também podemos estar num dia mais abstracto, mais minimal ou o que seja», afirma João Lencastre. O que importa realmente são os contrastes criados: «Na minha opinião, o contraste é um dos aspectos mais importantes da música. O facto de os três sabermos tocar o jazz mais tradicional e o mais contemporâneo, e rock, e electrónica e outras linguagens, dá-nos um maior leque de materiais para improvisar.»

Esta abertura de João Lencastre poderá ser explicada, em parte, pela circunstância de ser um dos mais internacionalmente rodados dos músicos portugueses, tendo no currículo um bom número de parcerias com “jazzmen” de outras proveniências geográficas. «Essa experiência proporcionou-me conhecer diferentes maneiras de ver a música e ajudou-me a crescer como músico», comenta. Na eterna verificação do que há de especificamente “português” no jazz e na improvisação nacionais, ele será das menos autóctones das vozes, mas isso porque entende que o jazz, música global, não tem de ser adjectivado regionalmente: «Não sei se podemos considerar que existe um “jazz português”. No geral, acho que cada vez mais os nossos músicos de jazz absorvem influências de várias culturas e géneros musicais, o que torna a sua música universal.»

É esta universalidade que caracteriza o jazz do presente início de século e milénio, tanto quanto o derrube do segregacionismo entre as práticas que seguem pela auto-estrada e as que preferem caminhos mais exploratórios. João Lencastre, Vojtéch Procháska e Demian Cabaud escolheram para esta viagem um combustível que todos os motores podem carburar, a improvisação. Utilizam-na com a desenvoltura de um trapezista, na certeza de que, até nos trilhos mais difíceis, somos todos potencialmente capazes de os entender.

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